O hospital estava afundado completamente no silêncio àquela hora da noite. Um silêncio quase palpável. Os corredores fracamente iluminados exalavam um cheiro forte, comum como em qualquer hospital. O homem se viu em uma maca, separado de outras pessoas por cortinas finas. Suas memórias retornavam aos poucos, em jorros de lembranças quase dolorosos. Sim. Ele se lembrava de ter sofrido um acidente de carro, mas que, aparentemente, saíra ileso.
Ele se levantou sem dificuldades. Não havia enfermeiras ou médicos a vista. Seguiu pelos corredores, observando atentamente algum enfermo dormindo ou recebendo seus medicamentos. Continuou sem ser impedido por ninguém. Subiu dois lances de escadas e atravessou uma pesada porta de ferro. Se deparou de repente com o céu noturno. Um imenso céu estrelado e sem nuvens. Mas ele não estava sozinho. Uma jovem observava perigosamente a cidade mais abaixo do parapeito.
- Não faça isso! - disse ele de súbito.
A jovem virou-se lentamente, como se houvesse saído de um longo devaneio.
- Eu não pretendo pular, se é isso que você está achando... - disse ela, sua voz era macia e sua pele branca refletia o luar.
- Me desculpe - disse o homem, aproximando-se lentamente de onde a mulher se encontrava. - Pensei que você quisesse...
- Não se preocupe, as vezes venho até aqui para pensar um pouco. - disse a jovem. - Aqui é um bom lugar para colocar as ideias no lugar.
Um vento frio subiu de repente, fazendo a mulher lacrimejar levemente. Ele se manteve a uma certa distância do parapeito, a altura não era uma das coisas que ele mais gostava.
- Tem medo de estar aqui? - perguntou ela, voltando-se novamente para a cidade.
- Geralmente, sim. E não acho prudente o hospital deixar essa porta aberta. Quem garante que loucura alguém pode fazer?
- Não se preocupe. Normalmente esse porta possui um grande cadeado... Não é bonito a vista daqui? - A mulher parecia perdia em pensamentos longínquos.
- Sim. Aqui o céu parece ter mais luzes que a cidade. - respondeu o homem, mas ele achava que aquela era mais um pergunta retórica.
- Como o silêncio pode ser significativo, não? Mesmo com todos os problemas eles continuam suas vidas, com esperanças e medos. - sua voz suava era quase etérea. - Eu tento imaginar o que se passa em suas mentes, como vivem com sua finitude tão breve.
Aquelas palavras não faziam nenhum sentido para o homem. Não naquele momento. Um silêncio seguiu-se, longo e profundo.
-Você não deveria estar aqui. - ela advertiu. - Ainda não chegou a sua hora. Eu saberia se fosse a sua hora.
- O que você é? - perguntou ele, sobressaltado.
Ela poderia responder qualquer coisa, mas no fundo ele saberia a resposta. Ela ponderou por alguns instantes.
- Talvez você me conheça como Morte, a Ceifadora de vidas - respondeu ela, sem se preocupar no impacto que causaria. - Mas ao longo de minha existência eu recebi muitos nomes, mas não se preocupe, como já disse, eu não vim para te buscar. Não Agora.
O homem tremeu. Um calafrio percorreu suas costas como um trem e uma estranha calma se abateu sobre ele.
- Devo ir, não posso me dar ao luxo mais que alguns minutos de folga. - disse a Morte. - Adeus Arthur, nos veremos em breve, mas não tão em breve, eu espero.
A bela mulher se afastou e sumiu diante da bruma que se formava rapidamente. O homem julgou-se louco, incapaz de conceber o que vira. Mas quando amanhecera ele ainda se encontrava na maca, e tudo não passara de um sonho que em breve esqueceria. Um sonho perturbador e incrivelmente real.
Versos
Há 13 anos