sábado, 31 de outubro de 2009

Um passado esquecido

Um céu noturno quase sem nuvens era o único teto protegendo as pequenas figuras no beco daquele lugar esquecido por todos. Apenas um homem mantinha-se acordado naquela confusão de lençóis imundos, papelões rasgados e corpos tremendo. Sua face lívida parecia procurar algo no escuro, como se tivesse despertado de um sonho muito estranho subitamente.


Um redemoinho de sacos plásticos subiu no ar de repente, farfalhando no silêncio mórbido do beco sujo. O homem agora caminhava lentamente, ignorando gemidos e protestos inarticulados de mendigos que deliravam próximos dali.

A luz débil da rua adjacente invadia timidamente o fim do beco, mas o homem parecia saber exatamente o que iria encontrar. Carros passavam em alta velocidade, evitando os homens que agora se encaravam nos dois lados da rua; ou talvez apenas tentassem chegar em segurança em suas casas.

– A sua percepção parece não ter mudado muito no fim das contas, Elahel – disse o segundo homem, acocorado num carro abandonado como uma ave de rapina.

– A que devo a honra da visita, Siryael? – disse Elahel, mais incomodado que surpreso com aquela figura sombria. – Suponho que não seja uma visita social.

Siryael continuava imóvel, iluminado pela luz vacilante do poste. Seu semblante era sereno e seus olhos demonstravam um conhecimento além da sua idade.

– Imagino que você saiba o motivo de minha presença, assim como sei o porquê está aqui. – argumentou Siryael, seus olhos de um azul penetrante pareciam iluminar-se mesmo nas sombras.

– Fico surpreso de vê-lo nesse plano velho amigo, ou vai dizer que passou a acreditar em velhas histórias? – Elahel deu as costas para o homem num movimento abrupto. Por algum motivo a sua presença representava muito mais que um simples passado esquecido.

– Ficou claro para mim o meu objetivo nessa história, meu irmão – disse Siryael, seu rosto ainda impassível. – Assim como em minhas visões sua presença é muito importante entre nossos irmãos.

– Talvez suas visões tenham lhe enganado, assim como as minhas me enganaram muito antes disso – a frase terminou quase num murmúrio. Elahel virou-se novamente, seu rosto agora muito mais decidido – Nós dois sabemos que isso não é mais possível. Há muito não sou mais digno de tal perfeição.

Aquelas palavras pareceram incomodar o anjo Siryael. Entretanto sua face continuou serena e intocada.

– Nossos destinos estão entrelaçados de alguma maneira – argumentou Siryael. – Espero que suas atitudes não lhe condenem para sempre, meu irmão.

– Talvez esse seja meu destino – disse Elahel, virando-se e encarando o beco sombrio – e talvez não haja nada que eu possa fazer.

Um silêncio repentino cobriu tudo como uma névoa densa e fria. O anjo Siryael já não estava mais lá. Um cachorro ladrou de repente, trazendo Elahel a realidade.

Um comentário:

  1. Nossa, nem acreditei quando vi que vc atualizou... *.*
    Quanto tempo! Que saudades de ler algo que escreveu! ^^'
    Bom, adorei!
    Como sempre! Adoro seu jeito de escrever...
    Estarei de volta, quando vc atualizar..
    Atualize por favor! rsrsrs

    BJinhuss
    saudades!

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