sexta-feira, 29 de maio de 2009

O mago e o aprendiz

"O jovem olhou a sua volta, mas todos já haviam deixado o recinto, exceto um homem, que o observava atentamente em uma cadeira no fundo do palco. O velho levantou-se lentamente e a cadeira em que estava sentando fundiu-se as sombras e desapareceu no ar.
– Incrível! – disse o jovem, incrédulo – Pareceu tão real. O senhor também é mágico profissional?
O homem continuou andando em silêncio e parou diante do teatro vazio. Sua barba era muito branca e cuidadosamente penteada.
– Isso não foi mágica, meu caro – finalmente falou o homem – Isso é magia.
O jovem mágico olhou sem entender, mas o homem não esboçou nenhum sinal de que havia feito uma brincadeira.
– Como disse? Um mágico profissional como eu sabe que essas coisas não existem – disse o mágico – É tudo ilusão, você chama a atenção para uma coisa – ele fez um breve movimento com uma moeda – enquanto outra completamente diferente acontece – e uma flor apareceu no lugar.
O velho mago ainda se lembrava como havia sido difícil para ele aceitar a magia e todas as coisas que para ele não existiam, mas agora ele era um grande mago e precisava encontrar um sucessor. Seus olhos eram profundos e perspicazes.
– A arte da ilusão é realmente admirável – disse o mago, repetindo o movimento com uma moeda e aparecendo com outra flor. – Mas a magia é...
O mago fez de repente um movimento tão rápido que sua figura pareceu um borrão. Num segundo as luzes do teatro vacilaram e no outro, milhares de buquês de flores de muitas cores surgiram do nada.
– ...ilimitada.
O jovem manteve-se completamente imóvel, sua mente parecia incapaz de aceitar o que acabara de ver.
– Mas... Mas, por que você está me mostrando tudo isso?
– Eu preciso de um aprendiz, meu jovem Damian – disse o mago – e você é dono de um talento que se torna cada vez mais raro no mundo da magia.
– E o que eu preciso fazer? – perguntou o rapaz, mesmo sem saber o que dizer.
O mago afastou-se retirando algo de uma pequena bolsa na sua cintura. Ele espalhou uma pequena poção de pó no ar, tornando-o oscilante, como uma parede de água translúcida.
– Apenas me acompanhe – disse o mago, atravessando a parede e desaparecendo num passe de mágica."
Por Rafael

sábado, 16 de maio de 2009

O Guardião

"Em algum lugar e muito além uma figura alada repousava sobre um muro muito alto. Seu olhar sereno perscrutava por todo campo aberto observando um homem aproximando-se solitário. O homem parou diante do muro, seu semblante era brilhante e belo, mas sob seu manto ainda ardiam cicatrizes profundas.
– Irmão, depois de tanta luta deram uma função tão enfadonha para um anjo tão magnífico – disse o homem, observando o anjo ainda imóvel do alto do muro.
– Não aproxime essa tua língua ferina de mim demônio, deixaste de ser meu irmão no momento em que arrancaram tuas asas – replicou o anjo, sua face e seu peito nu brilhavam como em chamas.
– Não venho discutir desavenças antigas irmão, só peço que me deixe olhar mais uma vez os belos campos de outrora – disse o astuto demônio, seu rosto falsamente belo esboçava um fraco brilho.
– Nunca mais terás a visão dos belos campos e nunca mais andará com seus pés pervertidos aqui. – disse o anjo, sua voz ribombava como um trovão.
A beleza esculpida no rosto do demônio desapareceu lentamente. Seus olhos negros ardiam e sua voz se tornou severa e poderosa.
– Eu já fui o mais belo e sentei no trono mais alto, como ousas falar assim diante de mim – o demônio agora parecia maior e sua presença era como uma sombra que crescia – Mesmo agora, depois de me mutilarem e me jogarem no mais escuro dos mundos poderia te destruir sem nenhum esforço.
– Não tem mais poderes aqui demônio – o anjo ergueu-se e suas enormes asas brancas bloquearam sol, projetando sombras para todos os lados.
Agora dezenas de figuras observavam por toda a extensão do muro. Altivas e brilhantes. As asas brilhando como diamantes sob o sol cálido e aconchegante. O demônio parecia relutante, mas suas sombras foram ofuscadas e ele apenas retornou para os desertos do muro além."
Por Rafael