quarta-feira, 10 de março de 2010

Vida e Morte

O hospital estava afundado completamente no silêncio àquela hora da noite. Um silêncio quase palpável. Os corredores fracamente iluminados exalavam um cheiro forte, comum como em qualquer hospital. O homem se viu em uma maca, separado de outras pessoas por cortinas finas. Suas memórias retornavam aos poucos, em jorros de lembranças quase dolorosos. Sim. Ele se lembrava de ter sofrido um acidente de carro, mas que, aparentemente, saíra ileso.
Ele se levantou sem dificuldades. Não havia enfermeiras ou médicos a vista. Seguiu pelos corredores, observando atentamente algum enfermo dormindo ou recebendo seus medicamentos. Continuou sem ser impedido por ninguém. Subiu dois lances de escadas e atravessou uma pesada porta de ferro. Se deparou de repente com o céu noturno. Um imenso céu estrelado e sem nuvens. Mas ele não estava sozinho. Uma jovem observava perigosamente a cidade mais abaixo do parapeito.
    - Não faça isso! - disse ele de súbito.
A jovem virou-se lentamente, como se houvesse saído de um longo devaneio.
    - Eu não pretendo pular, se é isso que você está achando... - disse ela, sua voz era macia e sua pele branca refletia o luar.
    - Me desculpe - disse o homem, aproximando-se lentamente de onde a mulher se encontrava. - Pensei que você quisesse...
    - Não se preocupe, as vezes venho até aqui para pensar um pouco. - disse a jovem. - Aqui é um bom lugar para colocar as ideias no lugar.
    Um vento frio subiu de repente, fazendo a mulher lacrimejar levemente. Ele se manteve a uma certa distância do parapeito, a altura não era uma das coisas que ele mais gostava.
   - Tem medo de estar aqui? - perguntou ela, voltando-se novamente para a cidade.
   - Geralmente, sim. E não acho prudente o hospital deixar essa porta aberta. Quem garante que loucura alguém pode fazer?
   - Não se preocupe. Normalmente esse porta possui um grande cadeado... Não é bonito a vista daqui? - A mulher parecia perdia em pensamentos longínquos.
   - Sim. Aqui o céu parece ter mais luzes que a cidade. - respondeu o homem, mas ele achava que aquela era mais um pergunta retórica.
   - Como o silêncio pode ser significativo, não? Mesmo com todos os problemas eles continuam suas vidas, com esperanças e medos. - sua voz suava era quase etérea. - Eu tento imaginar o que se passa em suas mentes, como vivem com sua finitude tão breve.
Aquelas palavras não faziam nenhum sentido para o homem. Não naquele momento. Um silêncio seguiu-se, longo e profundo.
   -Você não deveria estar aqui. - ela advertiu. - Ainda não chegou a sua hora. Eu saberia se fosse a sua hora.
   - O que você é? - perguntou ele, sobressaltado.
Ela poderia responder qualquer coisa, mas no fundo ele saberia a resposta. Ela ponderou por alguns instantes.
   - Talvez você me conheça como Morte, a Ceifadora de vidas - respondeu ela, sem se preocupar no impacto que causaria. - Mas ao longo de minha existência eu recebi muitos nomes, mas não se preocupe, como já disse, eu não vim para te buscar. Não Agora.
O homem tremeu. Um calafrio percorreu suas costas como um trem e uma estranha calma se abateu sobre ele.
   - Devo ir, não posso me dar ao luxo mais que alguns minutos de folga. - disse a Morte. - Adeus Arthur, nos veremos em breve, mas não tão em breve, eu espero.
A bela mulher se afastou e sumiu diante da bruma que se formava rapidamente. O homem julgou-se louco, incapaz de conceber o que vira. Mas quando amanhecera ele ainda se encontrava na maca, e tudo não passara de um sonho que em breve esqueceria. Um sonho perturbador e incrivelmente real.

sábado, 31 de outubro de 2009

Um passado esquecido

Um céu noturno quase sem nuvens era o único teto protegendo as pequenas figuras no beco daquele lugar esquecido por todos. Apenas um homem mantinha-se acordado naquela confusão de lençóis imundos, papelões rasgados e corpos tremendo. Sua face lívida parecia procurar algo no escuro, como se tivesse despertado de um sonho muito estranho subitamente.


Um redemoinho de sacos plásticos subiu no ar de repente, farfalhando no silêncio mórbido do beco sujo. O homem agora caminhava lentamente, ignorando gemidos e protestos inarticulados de mendigos que deliravam próximos dali.

A luz débil da rua adjacente invadia timidamente o fim do beco, mas o homem parecia saber exatamente o que iria encontrar. Carros passavam em alta velocidade, evitando os homens que agora se encaravam nos dois lados da rua; ou talvez apenas tentassem chegar em segurança em suas casas.

– A sua percepção parece não ter mudado muito no fim das contas, Elahel – disse o segundo homem, acocorado num carro abandonado como uma ave de rapina.

– A que devo a honra da visita, Siryael? – disse Elahel, mais incomodado que surpreso com aquela figura sombria. – Suponho que não seja uma visita social.

Siryael continuava imóvel, iluminado pela luz vacilante do poste. Seu semblante era sereno e seus olhos demonstravam um conhecimento além da sua idade.

– Imagino que você saiba o motivo de minha presença, assim como sei o porquê está aqui. – argumentou Siryael, seus olhos de um azul penetrante pareciam iluminar-se mesmo nas sombras.

– Fico surpreso de vê-lo nesse plano velho amigo, ou vai dizer que passou a acreditar em velhas histórias? – Elahel deu as costas para o homem num movimento abrupto. Por algum motivo a sua presença representava muito mais que um simples passado esquecido.

– Ficou claro para mim o meu objetivo nessa história, meu irmão – disse Siryael, seu rosto ainda impassível. – Assim como em minhas visões sua presença é muito importante entre nossos irmãos.

– Talvez suas visões tenham lhe enganado, assim como as minhas me enganaram muito antes disso – a frase terminou quase num murmúrio. Elahel virou-se novamente, seu rosto agora muito mais decidido – Nós dois sabemos que isso não é mais possível. Há muito não sou mais digno de tal perfeição.

Aquelas palavras pareceram incomodar o anjo Siryael. Entretanto sua face continuou serena e intocada.

– Nossos destinos estão entrelaçados de alguma maneira – argumentou Siryael. – Espero que suas atitudes não lhe condenem para sempre, meu irmão.

– Talvez esse seja meu destino – disse Elahel, virando-se e encarando o beco sombrio – e talvez não haja nada que eu possa fazer.

Um silêncio repentino cobriu tudo como uma névoa densa e fria. O anjo Siryael já não estava mais lá. Um cachorro ladrou de repente, trazendo Elahel a realidade.

sexta-feira, 29 de maio de 2009

O mago e o aprendiz

"O jovem olhou a sua volta, mas todos já haviam deixado o recinto, exceto um homem, que o observava atentamente em uma cadeira no fundo do palco. O velho levantou-se lentamente e a cadeira em que estava sentando fundiu-se as sombras e desapareceu no ar.
– Incrível! – disse o jovem, incrédulo – Pareceu tão real. O senhor também é mágico profissional?
O homem continuou andando em silêncio e parou diante do teatro vazio. Sua barba era muito branca e cuidadosamente penteada.
– Isso não foi mágica, meu caro – finalmente falou o homem – Isso é magia.
O jovem mágico olhou sem entender, mas o homem não esboçou nenhum sinal de que havia feito uma brincadeira.
– Como disse? Um mágico profissional como eu sabe que essas coisas não existem – disse o mágico – É tudo ilusão, você chama a atenção para uma coisa – ele fez um breve movimento com uma moeda – enquanto outra completamente diferente acontece – e uma flor apareceu no lugar.
O velho mago ainda se lembrava como havia sido difícil para ele aceitar a magia e todas as coisas que para ele não existiam, mas agora ele era um grande mago e precisava encontrar um sucessor. Seus olhos eram profundos e perspicazes.
– A arte da ilusão é realmente admirável – disse o mago, repetindo o movimento com uma moeda e aparecendo com outra flor. – Mas a magia é...
O mago fez de repente um movimento tão rápido que sua figura pareceu um borrão. Num segundo as luzes do teatro vacilaram e no outro, milhares de buquês de flores de muitas cores surgiram do nada.
– ...ilimitada.
O jovem manteve-se completamente imóvel, sua mente parecia incapaz de aceitar o que acabara de ver.
– Mas... Mas, por que você está me mostrando tudo isso?
– Eu preciso de um aprendiz, meu jovem Damian – disse o mago – e você é dono de um talento que se torna cada vez mais raro no mundo da magia.
– E o que eu preciso fazer? – perguntou o rapaz, mesmo sem saber o que dizer.
O mago afastou-se retirando algo de uma pequena bolsa na sua cintura. Ele espalhou uma pequena poção de pó no ar, tornando-o oscilante, como uma parede de água translúcida.
– Apenas me acompanhe – disse o mago, atravessando a parede e desaparecendo num passe de mágica."
Por Rafael

sábado, 16 de maio de 2009

O Guardião

"Em algum lugar e muito além uma figura alada repousava sobre um muro muito alto. Seu olhar sereno perscrutava por todo campo aberto observando um homem aproximando-se solitário. O homem parou diante do muro, seu semblante era brilhante e belo, mas sob seu manto ainda ardiam cicatrizes profundas.
– Irmão, depois de tanta luta deram uma função tão enfadonha para um anjo tão magnífico – disse o homem, observando o anjo ainda imóvel do alto do muro.
– Não aproxime essa tua língua ferina de mim demônio, deixaste de ser meu irmão no momento em que arrancaram tuas asas – replicou o anjo, sua face e seu peito nu brilhavam como em chamas.
– Não venho discutir desavenças antigas irmão, só peço que me deixe olhar mais uma vez os belos campos de outrora – disse o astuto demônio, seu rosto falsamente belo esboçava um fraco brilho.
– Nunca mais terás a visão dos belos campos e nunca mais andará com seus pés pervertidos aqui. – disse o anjo, sua voz ribombava como um trovão.
A beleza esculpida no rosto do demônio desapareceu lentamente. Seus olhos negros ardiam e sua voz se tornou severa e poderosa.
– Eu já fui o mais belo e sentei no trono mais alto, como ousas falar assim diante de mim – o demônio agora parecia maior e sua presença era como uma sombra que crescia – Mesmo agora, depois de me mutilarem e me jogarem no mais escuro dos mundos poderia te destruir sem nenhum esforço.
– Não tem mais poderes aqui demônio – o anjo ergueu-se e suas enormes asas brancas bloquearam sol, projetando sombras para todos os lados.
Agora dezenas de figuras observavam por toda a extensão do muro. Altivas e brilhantes. As asas brilhando como diamantes sob o sol cálido e aconchegante. O demônio parecia relutante, mas suas sombras foram ofuscadas e ele apenas retornou para os desertos do muro além."
Por Rafael